Essa blindagem externa fortalece ainda mais a percepção interna de que o Supremo — e, em especial, Moraes, pela centralidade de sua atuação — se tornou um polo de poder praticamente incontornável no arranjo político atual.
Se antes havia a expectativa de que o “contrapeso” pudesse vir de Washington, agora essa expectativa se esvazia. O tabuleiro volta para dentro das fronteiras. E, dentro delas, um ator se destaca.
5. A concentração de poder em Moraes: percepção e realidade
Institucionalmente, não existe “homem mais poderoso depois do presidente” descrito na Constituição. Mas a política não vive só de normas; vive de percepções, correlações de força e de quem tem, na prática, a caneta capaz de causar efeitos imediatos.
Moraes reúne hoje algumas chaves simultâneas:
- Relatoria de processos que envolvem desinformação, ataques às instituições e figuras centrais da política.
- Passagem pela presidência do TSE, com papel decisivo na condução do processo eleitoral.
- Capacidade de tomar decisões monocráticas de grande impacto, que só depois são apreciadas pelo colegiado, mas já produzem efeitos concretos.
Esse conjunto faz com que, aos olhos de muitos, ele não seja apenas “mais um ministro do STF”, mas o centro visível de um poder judicial que se tornou protagonista.
6. STF x Câmara: a crise institucional em torno do caso Zambelli
É nesse contexto que o conflito com a Câmara dos Deputados ganha outra dimensão.
No caso de Carla Zambelli, a sequência é sintomática:
- A Câmara decide não cassar o mandato da deputada, condenada e presa fora do país.
- Moraes anula essa decisão e determina a perda imediata do mandato, com posse do suplente em prazo curto.
- A Primeira Turma do STF confirma o entendimento de que, em situações específicas, a perda do mandato é consequência direta de condenação criminal, cabendo ao Legislativo apenas formalizar, não deliberar politicamente.
O que está em jogo aqui não é apenas uma parlamentar, mas a fronteira entre os poderes. Para muitos, o STF estaria “legislando” ao esvaziar a margem de escolha da Câmara. Para outros, apenas estaria aplicando a Constituição diante da omissão ou leniência política do Legislativo.
Independentemente da leitura, o efeito é claro: cresce a sensação de que:
- O STF pode intervir diretamente sobre mandatos eletivos.
- A Câmara, em certas situações, deixa de ser fiadora do destino político dos seus.
- A figura do relator — neste caso, Moraes — se torna o ponto focal de decisões com peso institucional enorme.
7. Um novo desenho de poder
Quando se juntam os elementos:
- A diplomacia que consegue reverter sanções externas contra um ministro.
- A perda de fôlego de estratégias de pressão internacional capitaneadas por figuras como Eduardo Bolsonaro.
- O STF intervindo em decisões da Câmara e definindo o destino de mandatos.
- A centralidade de um ministro específico em temas sensíveis ao regime democrático.
Surge um desenho nítido: o centro de gravidade do poder no Brasil desloca-se, em parte, para o Judiciário — e dentro dele, para figuras que concentram relatorias e presidências estratégicas.
Isso não significa que o Executivo deixou de ser o poder dominante, nem que o Legislativo desapareceu como arena decisória. Mas significa que qualquer cálculo de poder hoje, no Brasil, precisa passar por uma pergunta incômoda e inevitável: como o Supremo — e, concretamente, Moraes — reagirá?
No fim, a “vitória” da diplomacia brasileira nas sanções não é um capítulo isolado. Ela fecha a porta de uma frente de ataque externa e, ao mesmo tempo, reforça o protagonismo interno de uma instituição — e de uma pessoa — que já vinha se tornando o eixo em torno do qual a crise política brasileira gira.