Último tratado de controle de ogivas nucleares entre Rússia e EUA se encerra hoje. O Encerramento do acordo significa a ausência de um mecanismo para conter a expansão do poderio americano e russo.
O relógio da história marca um momento inquietante. Pela primeira vez em mais de meio século, Estados Unidos e Rússia encontram-se sem um tratado juridicamente vinculativo que limite seus arsenais nucleares estratégicos.
O New START, assinado em 2010 por Barack Obama e Dmitry Medvedev, expirou, deixando um vácuo perigoso: não há mais inspeções, não há mais limites formais, não há mais garantias. O que resta é a incerteza — e a incerteza, quando se trata de armas nucleares, é sinônimo de ameaça global.
Esse vazio jurídico abre espaço para que as duas maiores potências nucleares, responsáveis por cerca de 90% das ogivas existentes no planeta, ampliem ou modernizem seus arsenais sem qualquer mecanismo de contenção.
A Rússia, já envolvida em uma guerra devastadora contra a Ucrânia e em confronto direto com a Europa, tem reiterado ameaças de uso de armas nucleares táticas.
Os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, apostam em uma política de poder bélico, com planos de retomar testes subterrâneos e colocar sistemas de defesa no espaço. O resultado é uma escalada que pode reacender a lógica da Guerra Fria, mas em um cenário ainda mais instável.
O perigo não é apenas militar, mas civilizacional. A ausência de limites fomenta a corrida armamentista, reduz a previsibilidade e aumenta o risco de erros de cálculo. Um míssil lançado por engano, uma interpretação equivocada de movimentações militares, ou mesmo uma decisão política tomada em meio ao calor de um conflito, pode desencadear consequências irreversíveis.
A comunidade internacional observa, mas a resposta é tímida. A China, que nunca participou de tratados de controle, acelera a expansão de seu arsenal. França e Reino Unido reforçam suas capacidades nucleares. O multilateralismo, que deveria ser o antídoto contra o caos, parece paralisado diante da fragmentação geopolítica.
O editorial que se impõe é claro: o mundo não pode aceitar viver sem regras para o armamento nuclear. A diplomacia precisa retomar seu papel, mesmo em tempos de desconfiança e rivalidade.
A criação de um novo tratado é urgente, mas não basta. É necessário que este seja abrangente, envolvendo não apenas EUA e Rússia, mas também China e as potências nucleares europeias. Sem isso, estaremos diante de uma era em que a dissuasão se transforma em ameaça permanente, e a humanidade viverá sob a sombra de um apocalipse possível.
A história já mostrou que tratados de controle não são luxo, mas necessidade. O fim do New START não deve ser visto como uma oportunidade de expansão militar, mas como um alerta: sem limites, não há segurança; sem segurança, não há futuro.