Segundo publicações do governo do Paraná, a redução da alíquota do IPVA de 3,5% para 1,9%, sancionada em setembro de 2025, teria impulsionado os primeiros emplacamentos de veículos em 42% entre 2024 e 2025. O discurso oficial apresenta a medida como a maior redução do país e como um alívio direto para os contribuintes. No entanto, uma análise mais cuidadosa mostra que essa narrativa simplifica causas, generaliza benefícios e omite riscos relevantes.
As publicações oficiais atribuem o aumento de emplacamentos quase exclusivamente à política tributária. Embora exista correlação, outros fatores podem ter influenciado, como o crescimento das vendas de veículos, maior acesso ao crédito e transferências de frotas de locadoras. Ao destacar apenas o imposto, cria-se uma narrativa linear que não corresponde à complexidade do mercado automotivo.
Outro ponto é a generalização dos benefícios. O governo afirma que a medida ajuda as famílias a pagar IPTU, material escolar e até viagens. Na prática, apenas os proprietários de veículos tributados se beneficiam diretamente. A redução não alcança a totalidade da população, mas é apresentada como se fosse um alívio universal.
As publicações também sugerem que a arrecadação não será comprometida, já que o aumento da frota compensaria a queda da alíquota. Esse raciocínio é otimista demais. O equilíbrio fiscal depende da sustentabilidade do crescimento e pode não se confirmar no longo prazo. Se o ritmo de emplacamentos cair, o Estado terá de lidar com uma arrecadação estruturalmente menor, o que pode afetar serviços públicos essenciais.
Ao comparar o Paraná com Santa Catarina e São Paulo, o governo reforça a ideia de competitividade fiscal. No entanto, não discute os impactos sobre os serviços públicos que dependem dessa arrecadação. A redução pode ser atraente para os contribuintes, mas o custo recai sobre a capacidade do Estado de financiar saúde, educação e infraestrutura.
Um ponto crítico pouco abordado é a concentração de novos registros em cidades próximas às divisas com SC e SP. Isso indica que veículos de moradores de outros estados estão sendo emplacados no Paraná apenas para aproveitar a alíquota menor. Pela legislação, o veículo deve ser registrado no domicílio do proprietário. Emplacar em outro estado sem residência real configura fraude fiscal.
Esse movimento concentra artificialmente a arrecadação em municípios fronteiriços, sem que os veículos circulem majoritariamente ali. O resultado é um desequilíbrio federativo: SC e SP perdem arrecadação de veículos que continuam trafegando em suas estradas, enquanto cidades do Paraná recebem recursos inflados sem a correspondente demanda de infraestrutura. Trata-se de uma distorção que pode gerar conflitos entre estados e comprometer a credibilidade da política tributária.
“Embora o governo divulgue números gerais, não há dados oficiais que mostrem a distribuição dos emplacamentos por município. A ausência desse recorte impede avaliar com clareza se a arrecadação está sendo artificialmente concentrada em cidades fronteiriças.”
Além disso, parte do crescimento de emplacamentos decorre do aumento natural das vendas de veículos nos últimos anos. Neste caso, o número de registros em cidades maiores é evidente, mesmo não sendo fronteiriças.
A redução de IPVA também atrai para o estado veículos de frotas. É comum que empresas façam a transferência de suas frotas para filiais em estados com a menor alíquota de IPVA. Neste caso o Paraná só ganha.
Além dos riscos fiscais e das distorções federativas, há também o risco jurídico. Proprietários que emplacam irregularmente podem ser multados e obrigados a transferir novamente seus veículos. O Estado, por sua vez, corre o risco de ver sua política questionada como incentivo indireto à fraude. O discurso de “justiça tributária” perde força quando os efeitos colaterais revelam concentração artificial de arrecadação e competição predatória entre estados.
Segundo publicações oficiais, a redução do IPVA no Paraná é apresentada como uma vitória para os contribuintes e para a economia.
Mas, ao simplificar causas, generalizar benefícios e omitir riscos, a narrativa induz a um raciocínio otimista que não corresponde à realidade. O aumento de emplacamentos não é apenas reflexo de prosperidade interna, mas também resultado de migração irregular de registros. O desafio agora é enfrentar as distorções fiscais e institucionais que essa política trouxe à tona.
Mais do que comemorar números, é preciso discutir se o modelo adotado é sustentável, justo e legal. Caso contrário, o que hoje é celebrado como benefício pode se transformar em um problema estrutural para o Estado e para a federação.
Apesar de todas essas questões, é inegável que o eleitor paranaense que possui carro comemora a redução. No início de 2026, ele efetivamente está gastando menos com o imposto, e essa sensação de alívio no bolso tem impacto direto na percepção popular. O governo colherá esse resultado nas urnas, apresentando a medida como vitória política e como prova de que conseguiu “cortar mordomias para tributar menos”. O efeito imediato é positivo para quem paga, ainda que os problemas estruturais permaneçam invisíveis para a maioria.
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