Quando a guerra não é chamada de guerra: lições da Ucrânia para a Venezuela
A recente escalada de tensões entre Estados Unidos e Venezuela trouxe à tona um cenário de grande complexidade internacional. Declarações oficiais, ações militares e disputas pelo controle de recursos estratégicos colocam em xeque princípios fundamentais de soberania e direito internacional. A situação lembra outros episódios recentes da geopolítica mundial, nos quais potências tentaram justificar intervenções armadas sem assumir formalmente o estado de guerra. Diante disso, é essencial compreender os possíveis desdobramentos dessa crise em diferentes dimensões.
Dimensão Jurídica
- A declaração da ONU de que a operação é ilegal abre espaço para condenações formais em assembleias e conselhos, além de possíveis sanções multilaterais.
- Os EUA, ao insistirem que não estão em “guerra”, tentam contornar o enquadramento jurídico de agressão militar. Esse tipo de narrativa já foi usado por outros líderes (como Putin na Ucrânia), mas não altera o fato de que ataques com mísseis e sequestro de líderes configuram violação da soberania.
- Isso pode levar a pedidos de julgamento em cortes internacionais, como o Tribunal Penal Internacional, ainda que a execução prática dessas decisões seja limitada pela influência dos EUA.
Dimensão Geopolítica
- Países aliados dos EUA podem se dividir: alguns apoiando por interesses estratégicos (especialmente ligados ao petróleo), outros se afastando para não se associar a uma operação considerada ilegal.
- A América Latina, historicamente sensível à intervenção norte-americana, pode reagir com forte rejeição. Isso pode fortalecer blocos regionais como CELAC ou Mercosul em defesa da soberania venezuelana. Mas a Argentina enfraquece o bloco, pois Milei já se comprometeu com Trump e aceitou ajuda financeira para se manter no poder.
- Potências como Rússia e China provavelmente usarão o episódio para criticar os EUA e reforçar sua narrativa contra o “imperialismo ocidental”. Isso pode intensificar a polarização global.
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Dimensão Econômica
- A exploração direta do petróleo venezuelano por empresas norte-americanas pode gerar ganhos imediatos para os EUA, mas também instabilidade nos mercados energéticos, já que a legitimidade dessa apropriação seria contestada.
- Sanções contra os EUA são improváveis, dado seu peso econômico, mas podem surgir boicotes regionais ou retaliações comerciais.
- Para a Venezuela, a perda de controle sobre seus recursos seria devastadora, agravando a crise interna e aumentando a dependência de apoios externos.
Possíveis Desdobramentos
- Escalada militar: a insistência dos EUA em negar que é guerra não impede que a Venezuela (ou aliados) responda militarmente, o que pode transformar o conflito em uma guerra aberta.
- Isolamento diplomático: os EUA podem enfrentar maior isolamento em organismos multilaterais, mesmo mantendo influência em alguns aliados.
- Fragmentação interna na Venezuela: parte da elite pode colaborar com os EUA em troca de benefícios, enquanto setores populares resistem, gerando guerra civil.
- Reforço da multipolaridade: esse tipo de ação pode acelerar a busca de países por alternativas ao sistema dominado pelos EUA, fortalecendo alianças com Rússia, China e outros polos.
A crise entre Estados Unidos e Venezuela evidencia como disputas por poder e recursos estratégicos podem colocar em xeque os pilares da ordem internacional.
A tentativa de justificar ações militares sem reconhecer formalmente o estado de guerra fragiliza normas de soberania e abre precedentes perigosos para futuras intervenções.
Mais do que um conflito regional, trata-se de um episódio que pode redefinir alianças, acelerar a multipolaridade e testar a capacidade das instituições globais de responder a violações flagrantes do direito internacional.
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